Como Tudo Começou

 

A gênese do Finos Trapos está intimamente relacionada a um momento de florescência teatral de Vitória da Conquista, cidade de origem da maioria dos membros do Grupo, situada na região sudoeste do Estado. Entre 1998 e 2004, a grupalidade era prática corrente naquela cidade, o que trouxe benefícios para o cenário cultural desse período: mobilizações políticas frente ao descaso do poder público local para com a cultura; realização de Projetos Experimentais como o “Assim se Improvisa” e o “Dia do Teatro”, que reuniam artistas independentes e membros de diferentes agrupamentos; constantes realizações de temporadas de espetáculos dos grupos locais e da circulação de produções de Salvador e do sudeste do país; dentre outras ações de menor envergadura.

Nesses anos que antecedem a fundação do ‘Finos’, os jovens artistas que mais tarde seriam seus membros-fundadores desenvolviam trabalhos artísticos em coletivos distintos, mas com o fato em comum de terem dado os primeiros passos na cena teatral sob a tutoria de Marcelo Benigno, ainda hoje diretor do então Grupo de Teatro da UESB, rebatizado em 2001 de Grupo Caçuá de Teatro após se desvincular da Universidade. 

Na época, os fundadores do Finos Trapos, Roberto de Abreu e Polis Nunes integravam a Cia. Pafatac de Teatro (2000-2004); Daisy Andrade e Yoshi Aguiar participavam da Cia. Operakata de Teatro, grupo liderado por Gilsérgio Botelho. Apenas Fabianna Araújo, já residente em Salvador, não tinha a sua trajetória relacionada a nenhum agrupamento, salvo sua participação nos primeiros anos do Caçuá de Teatro, ainda como Grupo de Teatro da UESB.

A história do Grupo de Teatro Finos Trapos se inicia quando alguns dos vocacionados pelo Grupo de Teatro da UESB decidem se aprofundar nos estudos da arte dramática tentando o Exame Vestibular para ingresso no Curso de Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia.

A primeira a desbravar a capital baiana foi Polis Nunes, no ano de 2002, que incentivada por Marcelo Benigno logrou êxito no primeiro vestibular que participou. Isso foi o pontapé para que outros se vissem tentados a também realizar o processo seletivo: Em 2003, Daisy Andrade, Danielle Rosa, Roberto de Abreu e Yoshi Aguiar também foram aprovados, e partiram para Salvador; em 2004, Francisco André; em 2005, Fabianna Araújo e o último dessa geração a adentrar o curso foi Thiago Carvalho, selecionado em 2010.

De repente, Salvador se viu invadida por um povo de sotaque diferente e com posturas artísticas bastante peculiares. O estranhamento com o cenário cultural de Salvador atrelado à provocações suscitadas pelo contato com as teorias correntes na Escola de Teatro da UFBA levou Daisy Andrade, Polis Nunes, Roberto de Abreu e Yoshi Aguiar a instituírem um grupo de pesquisa em que o principal intuito era se debruçar sobre as linguagens estéticas e a forma de organização que se identificavam.

Dessa decisão nasce o Finos Trapos com uma poética cênica fundamentada na filosofia de trabalho em grupo e no imaginário da cultura de tradição popular do sudoeste baiano. Perseguindo, como define bem Rodrigo Dourado (2011), “[...] um teatro que não rejeita as matrizes populares da cultura local, mas com elas dialoga sem sacralizá-las ou capitalizá-las como tem feito Tarará (RN), Estandarte (RN), Imbuaça (SE), Finos Trapos (BA) e SerTão (PB)” (p.35).  

As pesquisas produzidas até então se traduzem nos espetáculos de repertório de linguagem popular com tratamentos e texturas contemporâneas que inventariaram para o Finos o reconhecimento de público e crítica registrado nas indicações a Prêmios e aprovações em Editais Públicos estaduais e nacionais.

 

Origem do Nome Finos Trapos

 

 

Roberto Ives Abreu Schetinni (2009), encenador e um dos membros fundadores do Finos Trapos, afirmava um dado curioso acerca da escolha do nome do grupo:

 [...] surgiu de uma inspiração barroca. Sugerimos, Polis Nunes e eu que Trapos e Farrapos fosse o nome de batismo do coletivo que ora se formava em 2003. Inspirados nas discussões e debates sobre o barroco e rococó brasileiro que o grupo realizava acerca das noções de hipérbole, maniqueísmo, antítese e paradoxo, com vistas a uma possível primeira montagem, Yoshi Aguiar sugeriu que o nome do coletivo fosse o sonoro e dicotômico ‘Fino Trapo’. Singular por Plural, o nome de batismo ficou Finos Trapos. (p. 136, 137).

 

 

 

 Artistas Conquistenses reunidos na casa de Yoshi Aguiar - Vitória da Conquista, 2004.

Foto: Arquivo Finos Trapos  

 

Essa sua explicação diz muito sobre a influência das discussões do campo acadêmico na reunião e formação do Grupo e das escolhas poéticas e estéticas que norteariam os espetáculos do Finos a partir de então, mas essa versão oficial se contrapõe, em certa medida, a algumas argumentações de outros membros fundadores que atribuem a escolha do nome a uma explicação mais simplória.

Polis Nunes explica que Trapos e Farrapos era o nome de um coletivo de trabalho fundado por ela e Roberto em Vitória da Conquista, na ocasião em que criaram um espetáculo intitulado “Rosa e Júsêão” (2001), e que o nome do Finos teria surgido de uma analogia de Yoshi Aguiar à nova condição social em que se encontravam após entrar para o seleto grupo de universitários, arguindo que o jargão Trapos e Farrapos traduzia apenas parcialmente a história dos membros. Foi então que o criativo Yoshi[1] sugeriu a adequação para “Trapos Fino”. Em comum acordo, os membros fundadores alteram a expressão para Finos Trapos.

De todo modo, a antítese Finos Trapos, enquanto título deste grupo, traduz não apenas o caráter barroco das primeiras montagens do ‘Finos’, como bem elucidou Roberto, mas, principalmente, pelo fato dar título a um agrupamento teatral. Sem sombra de dúvidas essa expressão traduz o espírito dicotômico que permeia os diversos momentos do cotidiano dos grupos teatrais, especialmente dos oriundos dos contextos culturais regionais.

Hoje, depois de doze anos de trabalhos ininterruptos, o Grupo de Teatro Finos trapos já se consolida como um dos mais atuantes no estado da Bahia desenvolvendo uma pesquisa que desemboca na produção de espetáculos teatrais, além de outras ações que contemplam diversos elos da cadeia produtiva no campo das Artes Cênicas, conquistando um público cativo e apreciador de seus trabalhos, além do reconhecimento da crítica especializada. 

        Referências:

SCHETTINI, Roberto Ives Abreu.  O Teatro como Arte do Encontro: Dramaturgia da Sala de Ensaio - Uma Abordagem Metodológica para a Composição do Espetáculo “Gennesius – Histriônica Epopéia de um Martírio em Flor” junto ao Grupo Finos Trapos. Dissertação de Mestrado. Salvador-BA: UFBA, 2009.

[1] Yoshi Aguiar é um exímio criador de neologismos. É dele que sempre parte o pontapé inicial de elaboração dos títulos e nomes dos principais projetos artísticos do Grupo.

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