Bastidores do Grupo Finos Trapos, Cesol Barra, 2016

Foto: Leonardo Pastor

 

Em treze anos de trabalho continuado, as vivências e experiências até aqui adquiridas pelo Grupo de Teatro Finos Trapos, nos fazem entender que a base das nossas atividades, residem na busca de oportunidades de praticar o exercício de um fazer teatral, que independe da concretização de uma ação destinada para públicos externos. O teatro é por nós vivenciado cotidianamente, em distintos ambientes e contextos, todos voltados para o pleno desenvolvimento das diferentes frentes de atuação.

A opção organizacional e filosófica do coletivo é a de um trabalho pensado e produzido cooperativamente, pelo teatro continuado, onde intentamos estabelecer ambientes propícios para o desenvolvimento de pesquisas, criação de espetáculos, promoção de atividades que contemplem a recepção e debates acerca do que foi apreciado, exercícios de experimentação teatral, ações de formação para artistas e plateias e a participação no contexto das Artes Cênicas no estado da Bahia, atuando então como artistas interessados no pleno desenvolvimento da área.

A reflexão sobre a prática é uma das atividades inerentes ao fazer tearal o qual se propõe o Finos Trapos, culminando numa sistematização de fazeres e saberes, que reverbera na prática das salas de ensaio, nos bastidores das montagens e também nos demais espaços de discussão e construção de conheciimento como é o caso dos espaços destinados aos cursos e treinamentos para o público externo e nos debates provenientes das ações que o Grupo desenvolve. Ao longo do tempo, o trabalho produzido se traduziu em espetáculos do repertório, com a utilização da linguagem popular em paralelo com tratamentos e texturas contemporâneas, já possuindo o Grupo um reconhecimento de público e crítica.

A aquisição de uma sede própria e do aporte financeiro que abarque as atividades continuadas pelo Grupo, necessidades que, por ora, ainda permanecem no campo da idealização e da vontade de que um dia se concretize, ainda nos impossibilita a contínuo desenvolvimento de ações sistematizadas com o apuro característico do Grupo Finos Trapos. Daí a descontinuidade da realização de projetos tão estruturantes - seja para o cotidiano do coletivo, seja para os artistas atingidos e a comunidade em geral - ser ainda uma realidade que permeia não somente o Finos, como tantos outros coletivos teatrais na Bahia e no Brasil.

Do início de 2012 a janeiro de 2016, data de início das atividades relacionadas à segunda edição do Projeto Afinações, se passaram três anos de muito trabalho na sala de ensaio, nas reuniões de produção e elaboração de projetos. Trabalhos novos estrearam; membros antigos do grupo saíram, outros novos se agregaram; ganhos e perdas no âmbito profissional e pessoal nos atravessaram. Foram anos intensos de grande crescimento para o Grupo, como também era grande a vontade do coletivo em realizar mais uma edição do Projeto Afinações, tão bem sucedido em sua primeira edição. Naqueles 13 meses pudemos experimentar um alto grau de sistematização de nossas atividades, a ponto de aperfeiçoar nossa forma de compreender a produção cultural e a filosofia de trabalho que defendemos enquanto identidade coletiva.

É então que em 2015, depois de um longo tempo produzindo sem conseguir capitanear nossos projetos, seja na esfera pública ou privada, finalmente o Afinações - Ano 2 é contemplado no Edital 02/2015, AgitAÇÃO Cultural – Dinamização em Espaços Culturais do Estado da Bahia, do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia, conseguindo assim a infraestrutura necessária para realização de algumas de nossas atividades de difusão, memória, pesquisa e formação. 

Mais uma vez, as atividades propostas para a realização do Projeto, dialogava com o que vêm sendo produzido e sistematizado ao longo do tempo, tendo como base duas experiências práticas do Grupo. Em 2008 o Grupo foi contemplado com o primeiro Edital Estadual de Ocupação de Espaços Culturais - Categoria Residência Artística - traduzindo-se na realização do Projeto “Finos Trapos Abrigo e Morada” pelo período de 02 (dois) anos (2008 – 2010). A partir desta primeira experiência de Residência, foi proposta a realização da primeira edição do Projeto “Afinações” (Manutenção do Grupo de Teatro Finos Trapos), que foi desenvolvido durante 14 meses, distribuídos entre os anos de 2011 e 2013. Nesta última proposta, por nós considerada como o amadurecimento da primeira, foram realizadas diferentes ações como oficinas, comunicações, exibição de espetáculos, leituras dramáticas, lançamento de livro e intercâmbio entre grupos do cenário teatral baiano, o que fez com que  o Projeto alcançasse uma importante repercussão e se configurasse como mais uma experiência positiva para a trajetória do Finos. A concretização desses dois Projetos desafiadores em atividades práticas, em muito contribuíram para uma maturidade artística e solidez administrativa do Grupo de Teatro Finos Trapos, levando-o a propor a realização do que se configurou a segunda edição do Projeto “Afinações”, ora reformulada para atender às especificações do Agitação Cultural – Edital de Dinamização em Espaços Culturais.

Em acordo com os atuais movimentos de estudo e implementação das políticas públicas de cultura, os Equipamentos Culturais configuram-se como importantes espaços (públicos ou não) onde artistas e púbicos distintos tem acesso à ações de formação, criação, produção, fomento e desenvolvimento de todas as linguagens artísticas. São espaços que, no nosso entendimento devem se predispor à uma utilização democrática, potencializando-os enquanto mobilizador do acesso à arte e a cultura e sendo inclusive, transformador do cotidiano de seu entorno, envolvendo não apenas seus gestores, funcionários e artistas visitantes, mas também toda a comunidade que podem vir a reconhecer o equipamento cultural como seu lugar de pertencimento. Todo este movimento propulsor, poderá ser um importante instrumento para ampliar a utilização destes espaços, mas poderá se configurar também como uma política de formação de plateia e consequentemente um maior consumo cultural.

Esse diálogo com os espaços culturais foi também a raiz de onde se capilarizaram os três projetos acima descritos, firmando-se, portanto, na trajetória do Finos como forte característica de seu trabalho.  Por isso, o  Finos Trapos acredita que a continuidade do Projeto “Afinações” é de grande importância para seus integrantes e os diferentes públicos pretendidos. Representa fortalecer o trabalho do Grupo, sua contribuição para a sociedade e o desejo de construir uma história cada vez mais expressiva e pautada no trabalho coletivo.  Diante desse novo e instigante desafio, o Finos mais uma vez se predispôs a compartilhar suas experiências, seus processos de produção e criação com outros artistas, espectadores e demais públicos a serem contemplados com a realização do “Afinações ”. 

Em uma versão mais compacta, mas nem por isso menos intensa e/ou com resultados menos expressivos do que a sua primeira edição, o Afinações Ano 2 tem o intuito de promover a realização de um ciclo de atividades, contemplando os eixos de exibição de espetáculo seguido de debates, experimentação através de leitura dramática, formação, treinamento e desenvolvimento do artista cênico a partir de oficinas, e fruição e apreciação através de exposição fotográfica. Ao todo foram nove ações externas - número superior ao que fora previsto para o edital em que fora contemplado - distribuídas em quatro frentes de trabalho (Leituras Encenadas, Fino Repertório, Varal de Memórias e Alvenarias Cênicas) e realizadas no Espaço Xisto Bahia e na Biblioteca Pública dos Barris.  

Exposição Varal de Memórias

Foto: Leonardo Pastor

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