O Grupo de Teatro Finos Trapos investe não apenas em produtos cênicos como também em atividades de formação no intuito de difundir nossos procedimentos de trabalho e práticas cênicas.Foi pensando nisso que em 2008 surgiu o Projeto Oficinão Finos Trapos.

Trata-se de um curso de capacitação profissional, com carga horária variável entre 40 e 60h, oferecidas gratuitamente aos participantes, com Mostra Cênica ao Final do processo.  Foi criado com o objetivo de ser uma atividade pedagógica voltada para artistas com experiência mínima no ramo das Artes Cênicas que compartilha o processo colaborativo de criação sistematizado pelo Finos Trapos ao longo de sua trajetória, além de difundir a filosofia e sistematização do modo de operar em Teatro de Grupo.

Depois de seis edições, hoje o Oficinão Finos Trapos é uma referência na área da Pedagogia do Teatro como ação de formação sistematizada por grupos teatrais na área da educação não-formal.

  A ideia do curso surgiu de maneira despretensiosa e a título de contrapartida elaborada a fim de ampliar a relevância social do projeto “Auto da Gamela Temporada 2008”, vencedor da primeira edição do Prêmio Carlos Petrovich, oferecido pela Fundação Cultural do Estado (Funceb). Na ocasião, ficamos felizes com a oportunidade de circularmos com o nosso mais recente trabalho, estreado em 2007, e que tivera boa receptividade na capital baiana na temporada de estreia no Teatro Vila Velha. A oficina figurava como coadjuvante ao lado de outras atividades que tinham o intuito de refletir sobre o universo da obra “Auto da Gamela” do autor Esechias Araújo Lima e do cenário histórico do teatro de Vitória da Conquista, cidade que receberia o projeto.

 Os princípios e os desejos do grupo, aliados à formação em licenciatura em teatro e às discussões acadêmicas que circulavam em torno da pesquisa de mestrado sobre dramaturgia da sala de ensaio e processo colaborativo de criação dramatúrgica de Roberto de Abreu, bem como a incrível receptividade dos 35 jovens selecionados, fizeram do primeiro Oficinão Finos Trapos uma experiência sensível e delicada que desvelou novos horizontes de possibilidades para os membros do grupo.

Atualmente o Oficinão Finos Trapos é uma das mais importantes frentes de trabalho do Grupo. Desde 2008 já são seis edições realizadas, cinco microrregiões/territórios de indentidades contemplados, cinco cidades/sede, 14 municípios abrangidos, 172 alunos participantes, 265 horas/aulas e seis mostras cênicas encenadas.

 

 *Na imagem: Mostra Cênica Oficinão 2012. Salvador-BA Foto: Eduardo Oliva

 


 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Sala de Ensaio Oficinão 2012. Salvador-BA. Foto: Polis Nunes.

 

O formato de oficinão surge da valorização da experiência de criação como recurso metodológico de grande potencial pedagógico. Do entendimento de que um processo fundamentalmente artístico não está desassociado da criação de um espaço de desenvolvimento humano nos campos profissional, cognitivo e afetivo.

É importante destacar que esse termo não tem origem no percurso formativo idealizado pelo Finos Trapos. É uma nomenclatura recorrente no trabalho, aqui já citado, desenvolvido desde 1998 pelo grupo Galpão (MG) que realiza anualmente em sua sede de trabalho o “Oficinão do Galpão Cine-Horto”. A nossa admiração pelo trabalho desenvolvido por esse grupo mineiro, inclusive, foi uma das razões que nos inspiraram a adotar o termo em nosso percurso formativo. Não encontrei registros de estudos sobre a expressão nem citação recorrente na historiografia em que tive acesso durante a minha pesquisa de campo, o que indica que a expressão Oficinão surgira realmente no seio do trabalho desenvolvido pelo grupo Galpão. Atualmente, além do Galpão e do Finos Trapos, dois outros importantes grupos da cena brasileira utilizam o termo para caracterizar algumas de suas atividades pedagógicas. São eles: o Clowns de Shakespeare (RN), que desde 2010 promove em seu Barracão (sede do Grupo) o “Oficinão Clowns” e o Teatro de Anônimo (Rio de Janeiro-RJ) que recentemente promoveu o “Oficinão Teatro de Anônimo” com o tema “O Ator Brincante e a Cena Cômica”, mas não consegui aferir informações sobre uma possível continuidade desses projetos.

Ainda que não seja um conceito debatido e já estabelecido na área teatral com características bem delineadas que o diferencie de outras nomenclaturas já recorrentes (oficinas, workshops, cursos, mini-cursos, etc.), a expressão oficinão tem se popularizado e ganhado adeptos não apenas no interior dos cursos promovidos por grupos teatrais, como também por artistas independentes e instituições de ensino não formal.

O formato de oficinão adotado pelo primeiro grupo a utilizar o termo é bastante distinto do sistematizado pelo Finos Trapos. O oficinão do Galpão segue uma estrutura que se assemelha mais a um curso livre do que uma espécie de oficina condensada, definição que melhor se aproxima do formato adotado pelo Finos. 

Essencialmente compreendemos como principal diferenciação entre curso livre e oficina os aspectos concernentes à carga horária, período de execução e abrangência de conteúdos dessas duas modalidades. Uma oficina tende a ser uma ação de curta duração com carga horária limitada, geralmente variável e inferior a 120h, tendo sempre um conteúdo que gravite em torno de um tema central. Já em um curso livre não existe limitação de carga horária nem de periodicidade, podendo versar, inclusive, sobre temas e conteúdos diversificados.

Um curso livre pode destinar-se ao domínio conceitual de todo uma área do conhecimento. Na Bahia, por exemplo, temos o tradicional curso livre de interpretação teatral da Escola de Teatro da UFBA (Salvador-BA), com duração de 12 meses; o curso livre de teatro da Sitorne Estúdio de Artes Cênicas (Salvador-BA), com duração de 24 meses; e o curso livre de teatro do Centro Universitário de Cultura (CUCA) da Universidade Federal de Feira de Santana (Feira de Santana), também com duração de 24 meses. Uma oficina geralmente detém-se a um aspecto específico de uma determinada área – uma técnica, procedimento, linguagem estética, etc. Exemplo: Oficina de commedia Dell’ Art; teatro do oprimido; criação dramatúrgica etc.

Comparando as duas experiências, no caso do Galpão Cine Horto o curso tem a extensão de 12 meses, sendo os nove primeiros dedicados à pesquisa e montagem de um produto cênico e os três últimos destinados à temporada e circulação do espetáculo.  Na versão adotada pelo Finos Trapos, o curso é desenvolvido numa carga-horária bem diferente e em um espaço de tempo bem menor.

Ademais, as limitações ocasionadas pelo contexto vivenciado pelo Finos – o que condiciona, inclusive, a autonomia da pesquisa e da encenação, uma vez que até o momento não contamos com um aporte financeiro que nos dê uma margem de conforto para fazer alçar voos a todas as ideias propostas pelo coletivo que se forma a cada Oficinão – transformam as dificuldades e limitações espaço-temporais e financeiras em mecanismos de aprendizagem.

O fato de o Finos Trapos ainda não gerir um espaço que funcione como sede também é um complicador – o formato itinerante do projeto. Todas as edições do Oficinão foram realizadas em espaços culturais distintos, o que de certo modo enriquece as potencialidades da experiência. Em alguns casos, as aulas ocorriam em um local e a mostra cênica desenvolvida em outro, o que apesar de ser algo problemático e claramente se derivar de uma limitação logística e de produção, colocava em evidência para os envolvidos no percurso formativo a capacidade de se adequarem a espacialidades diferenciadas e o lidar com contextos desfavoráveis.

No oficinão do Galpão, pessoas das diversas regiões do país se deslocam para a sede do grupo para participarem do curso. Já no oficinão do Finos, o grupo se desloca para regiões diferenciadas para trocar com os participantes. Essas posturas distintas proporcionam diferenças em diversos aspectos das experiências. Um dos mais latentes é a condição econômico-social do público alvo nos dois casos, uma vez que a participação no oficinão do Galpão requer disponibilidade de tempo durante um longo período sem nenhuma bolsa ou ajuda de custo aos participantes.

Outra característica a ser considerada no Oficinão Finos Trapos é o processo de horizontalização das decisões. Ainda que haja a figura do encenador e do coordenador pedagógico, as definições sobre a pesquisa estética e o tema a ser abordado na mostra cênica são realizadas no contato com os alunos e a partir das discussões que emergem desde o primeiro dia das oficinas, seguindo as etapas estipuladas na dramaturgia da sala de ensaio.

Essa postura evoca dos  participantes a disponibilidade para o diálogo e o debate. Assim, podem experimentar in loco a dinâmica do cotidiano de um grupo de teatro, com seus bastidores, às vezes conflituosos, às vezes de intensa harmonia e inspiração artística. No Oficinão tudo é colaborativo e em processo. O que não é nada fácil, mas os resultados obtidos são bastante estimulantes.

 

 


 O intuito dessa atividade pedagógica de formação de artistas e vivência de processo de criação é experimentar, num sistema de oficina de teatro, o processo de criação colaborativa que o Grupo Finos Trapos sistematizou. Por esse motivo são ministradas aulas teóricas e práticas distribuídas em eixos de abordagem que versam sobre os princípios que fundamentam a filosofia de trabalho do grupo.

  São eles:

     Eixo I - Colaboração no treinamento do ator;

     Eixo II – Dramaturgia da sala de ensaio;

     Eixo III – Gestão e produção colaborativa;  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Mostra Cênica Oficinão 2013. Ilhéus-Ba. Foto: Aldren Lincoln

 

Isso possibilita aos participantes uma imersão na filosofia de trabalho e procedimentos de trabalho próprios do Teatro de Grupo, tendo como parâmetros as ferramentas e procedimentos de trabalho em processos de criação artística desenvolvidas pelo Finos durante a sua trajetória de 12 anos atividades continuadas. Assim, além de contribuir para a formação dos participantes o curso contribui para difusão, o fortalecimento e a sistematização desse modo de operar com as artes cênicas.

O curso destina-se a intérpretes e encenadores, com idade acima de 18 anos e de experiência mínima comprovada no ramo das Artes Cênicas.

Em cada edição é realizado um processo seletivo composto de análise curricular e de dados informados em questionário anexado à ficha de inscrição. Os critérios adotados para a seleção dos participantes até o momento foram:

     

 1.Ter experiência mínima comprovada no ramo das artes cênicas nas funções de intérprete, encenador e dramaturgo e/ou produtor de teatro;

2.Ordem de inscrição;

3.Será priorizada a participação de estudantes da rede pública de ensino (básico ou superior);

4.Integrantes de grupo de teatro (amador ou profissional) também terão prioridade na inscrição;

 

 

Em breve traremos maiores informações sobre a próxima edição do Oficinão Finos Trapos.

Aguardem! 

 

 


  

1ª Edição - Janeiro e Fevereiro de 2008, Vitória da Conquista-BA. 

 

Para que uma ideia se torne frutífera e resulte em continuidade, a primeira execução é referência das mais importantes. Foi o que ocorreu nessa primeira edição, realizada em Vitória da Conquista no período entre os dias 14 de Janeiro a 10 de fevereiro de 2008. Obteve um total de 34 alunos participantes que desenvolveram um processo artístico-pedagógico em uma carga horária total de 64 horas.

O perfil dos participantes era de jovens, entre 18 e 34 anos, integrantes de grupos e companhias da cidade, a saber: Cia Dançart, Cia Marie Marrie de Teatro, Cia Operakatta de Teatro, grupo Avante Época, grupo Caçuá de Teatro, grupo Maniotti, Teatro Espaço Atuar, e artistas independentes.

O primeiro Oficinão culminou no texto dramatúrgico assinado por Francisco André e Roberto de Abreu – que também assinava a encenação – e uma mostra cênica intitulada "Escravos de Jó: Fragmentos de um Discurso", realizada dias 09 e 10 de fevereiro de 2008 no teatro Carlos Jehovah. O título faz uma alusão ao mito do artista que se sacrifica por sua arte. Baseia-se também no personagem bíblico, que foi desafiado a permanecer fiel a suas crenças até as ultimas consequências. A dramaturgia construída é fragmentada, sem estrutura de curva dramática. Traz quadros distribuídos em três atos que procuram responder as seguintes questões: Como nasce um artista? Para que ou para quem a sua arte se destina?

O roteiro emergiu de duas inquietações dos artistas locais. O primeiro deles concerne ao drama da gênese da criação artística, como ela é produzida e veiculada na cidade. Houve também, nas discussões, uma indignação recorrente no que diz respeito à postura dos espectadores em relação às obras locais em contraposição à circulação de espetáculos da capital e do sudeste do país. A segunda origina-se da expectativa de alguns por um “Jó” salvador do artista do interior – como em uma alusão ao Godot da peça de Samuel Becket. Este, durante a peça, era personificado, às vezes na figura de um produtor, às vezes no diretor. Alguém que revelaria o artista para o mundo, consagrando sua arte em dinheiro e fama. Os quadros se sucedem revelando ao público a crise de todo artista ao gestar um processo criativo, às vezes com os intérpretes narrando depoimentos em primeira pessoa, às vezes interpretando personagens fictícios.

A encenação coloca o público na posição ocupada pelo artista. Literalmente. O Carlos Jehovah é um pequeno teatro de arena localizado no centro da cidade, com capacidade para 100 espectadores. A partir do tema escolhido, decidimos por organizar o espaço de representação colocando o espectador no centro da arena e as cenas ocorrendo ao redor. O público também era personagem do espetáculo, o contraponto com o qual os atores dialogavam. Em alguns momentos, os personagens se misturavam à plateia, emergindo dela um espectador fictício que revelava o perfil de público da cidade visto sob a ótica daqueles artistas-criadores. 

A ação revelou diversos talentos conquistenses que até hoje movimentam a cena teatral da cidade. Outros alçaram voos mais ousados, e hoje seguem como estudantes dos cursos de Artes Cênicas de algumas Universidades, a exemplo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Univesidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) -Campus Jequié.

 

Foto: Daisy Andrade

Foto: Daisy Andrade


 

2ª Edição - Outubro de 2012, Salvador-BA. 

 

A segunda edição do Oficinão integrou o projeto “Afinações – Manutenção do Grupo Finos Trapos”, contemplado no edital Demanda Espontânea 2011, da Secretaria de Cultura do Estado (Secult). Foi realizada no período entre 02 de Abril e 01 de Maio de 2012. As aulas ocorreram no espaço cultural Ensaio e a mostra cênica ocorreu na Sala do Coro do Teatro Castro Alves.

Intérpretes, dançarinos e diretores compunham o perfil dos selecionados, o que contribuiu para que investíssemos em propostas que colocavam em foco a expressividade corporal dos participantes. A maioria dos artistas selecionados tinham suas experiências anteriores vinculadas ao curso livre e/ou a curso superior em artes cênicas da Universidade Federal da Bahia ou haviam realizado trabalhos com encenadores e profissionais expoentes da cena teatral da cidade.

Em uma das improvisações surgiu a frase que dá nome a mostra e ilustra bastante a dimensão simbolista da estética proposta: “A Primeira Vez que Vi o Mundo Foi Pra Mim que Olhei”. A imagem do mundo como espelho que reflete e ao mesmo tempo forma a identidade do indivíduo foi uma metáfora fortemente trabalhada durante a encenação, conduzida por Frank Magalhães. Para encenar um tema tão complexo, a escolha do encenador Frank Magalhães foi a estética do simbolismo.  Em um primeiro momento, os personagens desfilavam no foyer ostentando as relações de aparência, típicas de eventos sociais, numa espécie de prólogo inicial com um estilo de interpretação naturalista. Contraponto a esse primeiro quadro, quando o público adentra a sala de espetáculos, os personagens se desnudam, revelando a sua intimidade, não conseguindo sustentar as suas máscaras. Um jogo permeado de lirismo, poesia e muitas imagens. A iluminação cênica sublinha as sensações dos personagens, proporcionando ao público um espetáculo de cores tão berrantes quanto cada sentimento primitivo das personagens.

Na dramaturgia não há enredo, e sim blocos de sensações que mostram diferentes personagens sobre três perspectivas. A primeira delas, denominada “Mosaico dos ‘Eus’”, diz respeito ao caráter subjetivo e idiossincrático das identidades; revelava como as personagens se enxergam e como interpretam o mundo a sua volta. A segunda dimensão, intitulada “Sangra Meus Olhos: O desejo do outro”, versa sobre as relações interpessoais e toda a carga de conflitos e sensações delas oriundas (desejo, repulsa, afeto, amor, ódio, sexualidade, etc.). Já a última, de nome “O Espelho do Todo”, celebra a diversidade das idiossincrasias que marcam o mosaico de subjetividades que se relacionam, se modificando e alterando o mundo ao redor.

Um dado interessante é que essa edição do Oficinão Finos Trapos obteve um surpreendente número de 54 candidatos em apenas doze dias de inscrições, o que fez com que repensássemos o número de vagas, ampliando de 20 para 30 (trinta) a quantidade de contemplados.

 

Foto: Eduardo Oliva

 

Foto: Polis Nunes

 

 


 

 3ª Edição - Abril de 2013, Juazeiro-BA. 

 

Em 2013 realizamos três edições do Oficinão, com o apoio Financeiro do Fundo de Cultura do Estado da Bahia – Edital Setorial de Teatro 2012. O nosso intuito era o de promover o intercâmbio de informações e o desenvolvimento das artes cênicas não apenas nas cidades que receberiam o projeto como também nas cidades circunvizinhas que integram os Territórios de Identidade em que estão inseridas.

Isso já era algo suscitado nas edições anteriores, pois recebemos – especialmente em Vitória da Conquista – participantes de outras cidades, além do aspecto multiplicador do Oficinão que gera impactos significativos na cultura local na medida em que os intérpretes (atores, dançarinos, circenses, performers e congêneres) e encenadores (diretores, coreógrafos, dramaturgos e técnicos das artes do espetáculo) participantes eram antes de tudo agentes culturais.

 A primeira cidade em que aportamos foi Juazeiro, cidade do extremo oeste do Estado que integra o território de identidade Sertão do São Francisco, entre os dias 18 e 27 de Abril de 2013, totalizando 40h aulas realizadas no Centro de Cultura João Gilberto.

Logo de cara, nos deparamos com um verdadeiro oásis no meio do sertão baiano. A cidade fica às margens do Rio São Francisco, o gigante que corta diversos estados brasileiros.  É uma cidade que se situa na divisa entre Pernambuco e Bahia. Além disso, é avizinhada por Petrolina-PE, situada à outra margem do Velho Chico. O intercâmbio entre as duas cidades foi algo que marcadamente permeou o imaginário do Grupo durante aquele Oficinão. Algo, inclusive, abordado na Mostra de encerramento.

Em Juazeiro, navegamos sobre o imaginário cultural do Rio São Francisco, as percepções sobre a cidade, seus habitantes, com os espaços e as políticas públicas de manutenção e preservação do patrimônio histórico. Na mostra cênica realizada esses múltiplos olhares se bifurcam em duas correntes principais.

De um lado, a Juazeiro dos ribeirinhos, com o Rio são Francisco fomentando não apenas a economia da cidade como também a sua cultura, verificada nas estórias dos pescadores, e os personagens lendário como o Nego D’água, a Sereia Uiara, e a simbologia das Carrancas.  Do outro, a cidade urbanizada, caótica, tão próxima e tão diferente de sua cidade vizinha Petrolina; um retrato pintado, inclusive, pelas balsas enferrujadas e abandonadas às margens do Rio. Esses contrastes são revelados também no título escolhido para mostra: “Águas de Ferro”, exibida dia 27 de Abril no Centro de Cultura João Gilberto.

Obtivemos um total de 29 participantes, majoritariamente oriundos das duas cidades, o que tornou o projeto também interestadual. Outras cidades tiveram seus representantes, ainda que em menor número. São elas: Sobradinho-BA, Capim Grosso-BA e Lagoa Grande-PE. O perfil da turma que se formou em Juazeiro era bastante heterogêneo. Tínhamos participantes de linguagens (teatro, dança, produção cultural, arte educadores, e professores de literatura com experiência amadora em teatro), faixa etária (18 a 54 anos).

Foto: Aldren Lincoln

Foto: Joedson Silva


 

4ª Edição - Maio de 2013, Jequié-BA. 

  

A quarta edição do Oficinão ocorreu em Jequié, situada no Território de Indentidade Piemonte do Itapirucu, região sudoeste do Estado. Foram 40h de atividades distribuídas  entre os dias e 09 a 18 de Maio de 2013, com aulas no Centro de Cultura Antônio Carlos Magalhães e mostra cênica Realizada no Espaço Cultural Wally Salomão. Jequié divide com Vitória da Conquista o título de expoente microrregional, o que nos possibilitava conhecer os traços culturais daquela cidade.

Uma vez que se tornara um polo universitário na área, uma vez que hospeda desde 2012 o primeiro curso superior de licenciatura com habilitação em Teatro e Dança do interior do Estado, na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), já prevíamos o perfil predominante do público que se inscreveria no Oficinão, o que acabou se confirmando. Dos 34 inscritos, a grande maioria tinha algum vínculo com os cursos de artes da UESB.

Foram selecionados 30 participantes de perfil bem diferente das outras edições. A maioria era de dançarinos com pouca experiência com a linguagem teatral, o que notadamente dava ao grupo grande expressividade corporal e uma dificuldade com caracterização vocal e canto. Apenas 12 dos participantes não tinham vinculo com a Universidade, sendo predominantemente de teatro com passagem pelos grupos amadores locais.  A faixa etária era de jovens entre 18 e 32 anos. Tivemos participantes oriundos de cidades circunvizinhas (Poções e Vitória da Conquista) e de cidades distantes situadas em outras regiões do Estado (Ibiritaia, Porto Seguro, Serra Grande e Uruçuca).

Decidimos então que a mostra cênica lançaria um olhar sobre Jequié pela perspectiva do estrangeiro. Como esse estranho chega e é recebido? Como se relaciona com os habitantes da cidade? Como percebe a cidade e como é percebido por ela? Procurando responder a esses questionamentos levamos a cabo uma pesquisa de encenação em espaço não convencional, a fim de transformar o espectador em estrangeiro tornando-o personagem central de uma história permeada pelo teatro físico e o olhar dos artistas sobre urbanidade e a intolerância nas relações interpessoais. De tudo isso resultou a mostra “Preto no Branco”, exibida dia 18 de maio no Espaço Cultural Waly Salomão.

Na narrativa construída, o público é levado por brincantes que celebram o São João – festa mais conhecida da cidade – até o portal de entrada do espaço de representação, onde são recebidos por uma Onça transmutada em Esfinge.  A referência à onça é encontrada tanto no imaginário local quanto no próprio nome da cidade (Jequié significa onça ou cachorro, animais típicos daquela região na ocasião de sua fundação).  Essa personagem enigmática, numa alusão à celebre frase do mito de Édipo – “Decifra-me ou te devoro!” – dá boas-vindas aos estrangeiros que acabam de chegar, alertando para os perigos do novo mundo que irão desbravar. Ao adentrar o espaço, os espectadores são inundados por abraços, sons e cheiros que o proporcionam uma experiência sensorial que marca a descoberta de um novo lugar. Já acomodados, os mesmos encontram personagens locais e imagens metafóricas que retratam o cotidiano e os contrastes da cidade: os operários das fábricas, os feirantes, a religiosidade protestante, as estórias sobre o rio gavião, dentre outras. A expressão “preto no branco”, popular em algumas regiões sertanejas, ilustra tanto o ato de deixar tudo às claras – o que segundo a pesquisa realizada é um traço característico do povo de Jequié – quanto os contrastes, as diferenças socioeconômicas e culturais que marcam o cotidiano daquela gente.

Foto: Polis Nunes

Foto: Polis Nunes


 

 

5ª Edição - Maio de 2013, Ilhéus-BA. 

 

Ainda em 2013, a quinta edição do Oficinão Finos Trapos foi realizada em uma carga horária total de 40h na cidade Ilhéus, contemplando o Território de identidade do Baixo Sul. Nesta etapa tivemos um total de 24 participantes oriundos das cidades de Ilhéus e Itabuna e Salvador. A faixa etária oscilava entre 18 e 65 anos, sendo a maioria com idade superior a 24. Quase a totalidade dos selecionados já desenvolvia trabalhos nos grupos da cidade como intérpretes, encenadores e arte-educadores, o que facilitou o entendimento e assimilação da abordagem do curso. Alguns desses eram participantes da Cia Boi da Cara Preta, do Grupo Teatral Maktub e do Improviso Nordestino, coletivos que integram a cooperativa de grupos residentes na Tenda do Teatro Popular de Ilhéus, espaço onde o curso foi realizado.

A região sul do Estado, em especial a cidade de Ilhéus, é tema de produções de diferenciadas linguagens artísticas. O mais destacado deles indubitavelmente é Jorge Amado, que eternizou em versos e prosa os costumes, a paisagem e a economia daquela região. Sua obra nutre até os dias atuais o imaginário nacional sobre o jeito de ser do baiano. Mas até que ponto a ficção de Jorge Amado se aproxima da realidade cotidiana de Ilhéus e Itabuna contemporânea? Procurando responder essas perguntas - suscitadas por Yoshi Aguiar, responsável pela encenação da mostra em Ilhéus – através de pesquisas, debates e improvisações, os artistas participantes do Oficinão decidiram por abordar dois aspectos principais que deram o tom da poética de encenação da mostra cênica. 

Assim, o confronto do imaginário jorgeamadeano com a Ilhéus cotidiana, com suas mulheres, o consumismo e a sombra do coronelismo resultou na mostra cênica de título “Eu Nasci Assim, Eu Cresci assim... Mais Agora Mudei”, apresentada dia 09 de Junho na Tenda do Teatro Popular de Ilhéus. O título já denota um posicionamento crítico sobre a discussão, apesar de o principal intento do discurso proposto ser o de fazer com que o espectador se visse retratado nas situações postas em cena.

A mostra então foi organizada em quadros e situações aparentemente desconexas, mas que no decorrer do espetáculo vão ganhando sentido e unidade de discurso. A dramaturgia do espetáculo não se utiliza de uma fábula e sim de situações que reportam ao cotidiano e as relações interpessoais entre os cidadãos da região. Os personagens surgem das arquibancadas da arena do circo, com um visual que sublinha o contraste entre intimidade e ostentação. Os quadros se sucedem revelando as inúmeras facetas desses personagens que em determinados momentos se mostram afáveis e companheiros e em outros regurgitam entre si e nos espectadores seus preconceitos mais íntimos.

Os personagens femininos transitam nos quadros, ora sensuais, ora humilhadas pelo escárnio dos homens. Já os homens, remontam com seu comportamento o imaginário masculino evocado na obra de Jorge Amado. Ao final, todo esse arsenal de imagens aparentemente fragmentadas vai convergindo para que o espectador se reconheça através dos lugares e símbolos que identificam a cidade de Ilhéus. Isso é sublinhado através da afirmativa ecoada pela música tema da mostra “Eu sou Você” de Alceu Valença.

 

Foto: Aldren Lincoln

Foto: Aldren Lincoln


 

 

6ª Edição - Outubro de 2014, Salvador-BA. 

 

A sexta edição do Oficinão ocorreu entre os dias 01 e 29 de Outubro novamente em Salvador-BA, integrando a programação do projeto de residência desenvolvido pelo Grupo Finos Trapos no Espaço Cultural Ensaio. Foram selecionados 23 participantes que vivenciaram um processo artístico pedagógico distribuído em uma carga horária de 40h. As aulas dessa edição ocorreram no Espaço Cultural Ensaio e a mostra cênica no Teatro Sesc Senac Pelourinho.

Os selecionados eram artistas majoritariamente da região metropolitana de Salvador com faixa etária entre 18 e 50 anos. O grupo era heterogêneo formado por estudantes da Escola de Teatro, Escola de Dança da Funceb, grupos locais  e artistas independentes.

Durante as discussões foi se sedimentando nos participantes o desejo de eleger como ponto de partida para a criação a dicotomia entre as utopias que mobilizam e o racionalismo que condiciona e automatiza o comportamento humano. Dessas provocações surgiu o tema abordado na mostra cênica “Humanoidis Quotidianus”, uma espécie de quadro surreal da complexidade que marca a sociedade contemporânea.

Através da mistura entre corporalidade e sonoridade, o discurso proposto em “Humanoidis Quotidianos” questiona o que torna os indivíduos seres especiais: O verbo e a faculdade de se comunicar de maneira lógica, ou a habilidade de projetar desejos, sonhos e aspirações?

Essas provocações poéticas resultaram um trabalho composto por diversas atmosferas. O caos ordenado dos desejos e vontades armazenadas em nosso subconsiente, o condicionamento comportamental que nos submetemos nas rotinas diárias, a cegueira advinda do automatismo que o cotidiano nos impõe, a energia etérea suscitada pelos sonhos e utopias que aspiramos... Tudo isso compõe um enorme mosaico psicodélico e imagético que transportará o espectador para um universo prenhe de possibilidades.

 A Mostra “Humanoidis Quotidianusfoi dirigida por Frank Magalhães, a Dramaturgia assinada por Francisco André e a direção musical foi de Tomaz Mota.

 

Foto: Polis Nunes

 

Foto: Polis Nunes

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