Repertório em Cartaz

Foto: Tomaz Mota

 

Se nas dimensões continentais do nosso país é possível encontrar problemáticas e características semelhantes relacionadas à criação em grupo, na Bahia e com o Grupo de teatro Finos Trapos isso não poderia ser diferente.  Sua trajetória ainda em construção, vez que o Finos Trapos é um grupo que permanece em atividade até o presente momento, é marcada pela resistência a uma série de dificuldades e conquistas importantes em diversos setores do fazer teatral.

Esse cenário de constante instabilidade aliado ao fluxo natural das demandas pessoais dos membros do Grupo Finos Trapos resultaram em importantes decisões com vistas à luta pela sobrevivência do coletivo com um mínimo de estabilidade. Trazer os nossos espetáculos de repertório para os baús da memória foi uma decisão difícil, delicada e que nos trouxe a maturidade necessária para continuar sobrevivendo enquanto coletivo.

Além disso, essa decisão está relacionada com a dinâmica pessoal dos membros da formação original do Grupo que tiveram que se afastar da cidade do Salvador por inúmeros motivos ligados a demandas profissionais e escolhas de vida. Isso naturalmente trouxeram custos adicionais para a manutenção de todo o repertório, o que nos forçou a chegar a conclusão de romper com esse passado, inclusive poeticamente, para investir em novos trabalhos que refletissem as inquietações artísticas dos membros que permaneceram, a realidade da produção cultural em nosso país a partir dos reflexos da crise financeira iniciada em 2008, e a necessidade ainda iminente de uma sede administrativa que abrigasse nossas quinquilharias cenográficas, nossas experimentações práticas e os voos poéticos que traçaríamos.

Muitas dessas questões ainda permanecem irresolutas, mas o fato é que esse rompimento com o repertório nos possibilitou alçar novos voos para uma atualização de nossas estratégias de encenação, novos referenciais estéticos, o exercício da encenação sob a coordenação de outros membros e um maior diálogo com a dramaturgia e produção literária decolonial latino-americana. 

Os desafios ainda são muitos, mas a força de vontade e a paixão pelo nosso fazer continua e está retratado nesses trabalhos mais recentes que ainda permanecem na estrada.

  


 

 

 MÓS AI QUÊ (2016)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

João das Dores – (recuperando-se) Cada vez que subo nesse palco... Meu corpo morre um pouco.

Armando Trama – (refletindo) Bonito isso.... Pura poesia!

Zé Galhofa – (risonho) poesia de dor nos quartos dos outros é refresco.

Armando Trama – Mas, se é bonito, vou dizer que não é?!

 

Foto: Estudio SG

 

Um Grupo de Teatro é feito de histórias de vida, amores, doçuras e dissabores que juntas dão forma a boas estórias. A aventura de se caminhar junto durante tanto tempo fazendo o que se faz, sendo quem se é e acreditando no que se acredita é o combustível que impulsiona, implanta o caos, a serenidade, os conflitos e as celebrações. Foi pensando em tudo isso, a partir das reflexões sobre o momento atual do nosso país e nas reverberações dos processos internos do Grupo, que decidimos encenar esse novo espetáculo de repertório. 

A ideia surgiu durante a montagem e apresentações do sarau Folia e Poesia (2015), quando revisitamos a dramaturgia e o universo poético das montagens encenadas nesses treze anos de trajetória do Finos.

Misturando ficção e realidade, MÓS AI QUÊ é uma exposição corajosa da intimidade do Finos, síntese de muitos processos que outros coletivos vivenciam Brasil e mundo afora, colocando em destaque as relações interpessoais e os desafios de conviver em coletividade, moldando as idiossincrasias e subjetividades num grande mosaico que compõe nossas escolhas de vida e ideais.

MÓS AI QUÊ expõe a crise.

A crise que vivemos como coletivo há treze anos convivendo e fazendo teatro no nordeste brasileiro; as crises próprias dos processos criativos nas artes cênicas; a crise de lidar com os contextos socioeconômicos desfavoráveis; a crise das pessoas que nos deixaram para vivenciar suas próprias trajetórias particulares; a crise de quem nos deixou para transcender ao mundo físico; a crise de valores alavancada pela ascensão conservadora atual; a crise sociopolítica e os tempos sombrios que vivenciamos nos últimos anos... Mas, acima de tudo, a crise como espaço de surgimento da novidade, da possibilidade de reflexão sobre quem somos, quem fomos e o que queremos. A crise não como um fim, mas um recomeço. 

 

Foto: Estúdio SG

 

No argumento da peça, entre as variadas comédias e dramas que passam, três artistas de um Grupo de teatro reviram seus imaginários criativos a fim de encontrar uma arrebatadora estória para seu novo trabalho e enfrentar a crise em que vivem.   Durante a jornada, visitam o mosaico de seus antigos personagens inspirados no imaginário sertanejo e procuram um novo sentido para continuarem trabalhando juntos. A linguagem, inspirada na estética regionalista, proporciona ao espectador a sensação de adentrar no imaginário e no universo árduo e delicado da criação artística.

Os elementos visuais, que remetem à cultura nordestina – principal reduto das criações do Finos   Trapos,   compõem    uma   diversidade   de   signos   que representam o desnudamento do inconsciente coletivo sobre o artista sertanejo a partir da poética de encenação explorada pelo Grupo.

 MÓS Aí QUÊ é um convite ao público para conhecer o universo dos processos de criação artística e entender a crise como oportunidade de sair da zona de conforto para alçarmos novos vôos, explorando territórios desconhecidos. Permeado de elementos autobiográficos, o espetáculo mistura ficção e realidade para desnudar aos espectadores os percalços, lirismo e poesia que compõem o mosaico de vivências, aventuras, afetos, encontros e desencontros de um grupo de teatro. 

 

Foto: Estúdio SG

 

Com encenação de Frank Magalhães e dramaturgia de Francisco André, o espetáculo estreou em dezembro de 2016 no Teatro Gamboa Nova e é o mais recente trabalho de repertório do Grupo de Teatro Finos Trapos. 

Para além da poética de encenação, que visa uma reflexão sobre o universo dos artistas nos tempos sombrios e instáveis em que vivemos, o espetáculo é uma retomada do Grupo aos seus referenciais estéticos de origem, promovendo um diálogo entre tradição e contemporaneidade na cena baiana e nordestina.

Prenhe de lirismo e delicadeza, com trilha sonora original composta e  interpretada pelos membros do coletivo, MÓS AI QUÊ segue o desafio imposto pelo coletivo de lançar luz a processos criativos que busquem o aprofundamento interpretativo dos atores e a construção de personagens marcantes. Isso demarca um passo adiante na pesquisa poética do Grupo, que na grande maioria dos trabalhos anteriores investiu na pesquisa de personagens tipo e de uma representação calcada na forma, na suspensão da tensão dramática, no delineamento de partituras corporais e nos desenhos imagéticos frente à caracterização psicológica de personagens. 

Nesse novo trabalho conseguimos dosar lirismo e drama, forma e conteúdo, onde a metalinguagem passa de efeito de suspensão da ação para tornar-se parte integrante da estrutura do drama.

 Foto: Estúdio SG

 

 


 

 

  O Vento da Cruviana (2014)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Neta – (Perdida em pensamentos) Parece que a ventania aumentou...

Avó - Né não. Esse barulho eu conheço de muito. É o Vento da Cruviana. (Sombria) Tomara que eu esteja enganada. (Breve pausa) Deve estar um frio de doer a espinha lá fora.

Trecho de O Vento da Cruviana

 

Foto: Diney Araújo

 

 

 

No final do ano de 2012, concomitante a execução das inúmeras frentes de trabalho que constituíam o Projeto “Afinações”, começamos  a ventilar a temática que viria a ser abordada no próximo projeto de montagem. Em meio ao grande número de sugestões e possibilidades, Thiago Carvalho arguiu sobre o seu encantamento pelo Conto do escritor colombiano Gabriel García Marquéz, intitulado “A Incrível e Triste História de Cândida Erendira e Sua Avó Desalmada”.

A sugestão aficionada de Thiago na ocasião, membro mais recente a integrar no Grupo – plantou nos demais a semente da curiosidade. Meses depois, fizemos uma leitura coletiva do Conto e ficamos inebriados. Saímos da primeira leitura ao mesmo tempo encantados e cheio de interrogações. Como transpor aquela narrativa rica em imagens e uma infinidade de personagens para a linguagem dramatúrgica?  Como adequar as inúmeras possibilidades cênicas do Conto para a estética característica do trabalho do Grupo?

Assim, para lidar com o desafio que se apresentava, decidimos por tomar o texto de Gabriel García Marquéz apenas como ponto de partida e fonte de inspiração para criar uma dramaturgia e encenação completamente independente do original.

Iniciamos o processo de montagem em 05 de novembro de 2013, tendo como dispositivo metodológico o processo colaborativo de criação – marca característica do Finos Trapos em todos os seus trabalhos cênicos e pedagógicos. O itinerário de pesquisa cênico-dramatúrgica se revelou doce, singelo e rico de soluções engenhosas, como, por exemplo, a centralização da ação dramática nos dois personagens essenciais, transpondo uma saga quase epopéica para uma encenação com apenas dois intérpretes. 

Foto: Leonardo Pastor.

Nessa sétima montagem de repertório do Grupo, temos como cenário o imaginário coletivo sobre o sertão. Idílico, atemporal e suspenso no tempo e no espaço. A paisagem e os elementos da natureza (o vento, o deserto, a água) marcam simbolicamente os atos do espetáculo. Assim, mais que uma paisagem natural, o sertão como metáfora abordada no espetáculo representará também a topografia das relações humanas. Uma verdadeira ilustração da ambiguidade dos nossos desejos, inquietações, desafios e fronteiras.

Até que ponto a tradição fixa valores contribuindo para que hierarquias e dicotomias sejam historicamente instituídas? Em uma tradição onde o feminino e o masculino não estão em pé de igualdade, como romper com o problema do sexismo sem ao mesmo tempo negar determinados valores culturais? As mulheres são apenas vítimas ou também contribuem para a propagação de um modelo cultural onde o masculino é tido como dominante? Em que medida os laços consanguíneos e culturais condiciona o espírito humano?

“O Vento da Cruviana” transcorre essas fronteiras sob a ótica de duas personagens, Avó e Neta. Dividida em três atos, a dramaturgia narra a saga dessas duas mulheres que se veem obrigadas a deixar o casarão em que viviam isoladas, à espera do patriarca Rudá, iniciando uma incrível jornada que transcorre as fronteiras do espírito feminino.

No argumento da peça, uma Menina moça, evocando a expressão popular, é a personificação da resiliência e capacidade do ser humano de sobreviver às adversidades.  A Avó, por sua vez, entende que como vivem numa terra em que só os homens têm direito a nome, deve se virar como pode para satisfazer as suas necessidades, o que, segundo a sua lógica, justifica suas atitudes para com a Neta, até o dia em que um grande acontecimento transforma suas vidas para sempre. Tendo o sertão e os elementos da natureza como metáfora da topografia das relações humanas, da ambiguidade dos nossos desejos, inquietações e desafios “O Vento da Cruviana” combina realidade e o elemento fantástico para ressignificar as perdas, aspirações e convenções entre mulheres de gerações diferentes.

O espetáculo estreou em 2014 em Salvador e já realizou diversas temporadas na capital e interior baiano, participou dos Festivais Mostra de Teatro Gira Sola (Ribeirão Preto-SP), Festival Ipitanga de Teatro (Lauro de Freitas-BA), e Festival de Teatro Latino-americano Fitlã (Salvador-BA). Atualmente é o único espetáculo de repertório que continua Na Estrada.

Foto: Diney Araújo.

 

 

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