Foto: Tomaz Mota

Berlindo (2011)

 

O período anterior ao processo de criação de Berlindo foi marcado por profundas mudanças do Grupo de Teatro Finos Trapos. A conclusão dos estudos de graduação e as conquistas particulares fizeram com que os membros disponibilizassem pouco tempo para o trabalho no Finos. Atrelado a isso, o afastamento por tempo indeterminado de Danielle Rosa, Rick Fraga, Roberto de Abreu e Shirley Ferreira que por razões de ordem pessoal e profissional tiveram que residir em outras cidades, passou a onerar ainda mais os custos de produção, vez que seria necessário que se arcasse com as despesas de deslocamento desses membros, não apenas para as apresentações como também em todo o processo de ensaios. Esse fator, aliado à agenda complicada fez com que a produtividade do Finos despencasse, sendo necessária uma reestruturação. Desta, nasce o projeto de montagem de Berlindo, conduzido pelos membros do Grupo que permaneciam em Salvador-BA.

A ideia de encenar Berlindo foi apresentada por Yoshi Aguiar logo após o diálogo com o autor do texto, seu amigo Gilsérgio Botelho. Gilsérgio é natural de Vitória da Conquista-BA, e havia dirigido Yoshi anteriormente naquela cidade em trabalhos junto à Cia. Operakata de Teatro, da qual além de dramaturgo é também encenador. Por admirar e conhecer a trajetória do Finos Trapos, ao saber do nosso interesse em remontar o seu texto, criado na década de 90 e encenado pela primeira vez com o seu Grupo no Rio de Janeiro-RJ,  Gilsérgio cedeu os direitos para que o Finos Trapos pudesse contar a saga desse personagem agregando à narrativa a sua linguagem poética. 

O espetáculo é a primeira aventura do Finos Trapos no teatro de rua, ainda que alguns dos trabalhos anteriores –  como “Sagrada Folia” e seu fragmento “O Caçador de Bruxas” –  tenham ganhado adaptações para esse espaço de encenação, o que se configurava, entretanto, como teatro ‘na’ rua e não propriamente teatro ‘de’ rua. Esta seria a primeira aventura genuinamente popular, pois o projeto buscava a interlocução não apenas com a temática do povo simples como também procurava o mesmo enquanto público alvo. Foi um espetáculo projetado para ser apresentado em feiras, praças, largos, estações etc. Lugares inusitados, onde os atores sairiam do conforto da caixa cênica para se comunicar diretamente com o espectador da periferia. Em Berlindo, o Finos experimentou a participação de um intérprete convidado, Danilo Cairo, integrante do Grupo Toca de Teatro em Salvador. 

Trata-se de um espetáculo bufo, grotesco, projetado para ser de fácil comunicação com a gente humilde, que pouco conhece dos signos do teatro canônico realizado nas grandes casas de espetáculos. Talvez por isso “Berlindo” não tenha obtido tão boa repercussão entre a gente erudita do teatro como nos espetáculos de repertório anteriores, gente que a longa data acompanhava o trabalho do Grupo.

Com uma curva dramática de fácil assimilação, algo um tanto peculiar ao perfil barroco que marcava o finorepertório até então, o espetáculo afirmou-se com um caráter panfletário e didático. Essa característica talvez tenha sido o motivo de o espetáculo ter tido boa repercussão entre a gente popular, público alvo da montagem.

A dramaturgia de Berlindo faz uma sátira à política brasileira. O personagem-título convence uma pequena comunidade de suas boas intenções e chega ao poder. Mas não tarda a ser desmascarado, experimenta a reação do povo e é deposto de seu cargo.  Uma ópera bufa melodramática, lasciva e brega. O espetáculo estreou em 2011, vencedor do Prêmio Manoel Lopes Pontes - Apoio a Montagens de Teatro (2010). Cumpriu temporada se apresentando em diversos espaços da capital e no interior baiano, mais precisamente na cidade de Santo Antônio de Jesus. Participou da Mostra SESC de Artes - Aldeia Pelourinho em 2012, logo após encerrando sua trajetória. 

 

Foto: Érica Daniela

 

Foto: Érica Daniela

 

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