Em cada espetáculo concebido há história, um arsenal de aventuras, estórias e momentos inesquecíveis que formaram o Grupo Finos Trapos. Alguns deles estão guardados no baú da memória e decidimos que não mais retornarão à cartaz. 

 

 

Ensaio Aberto de Gennesius (2009) - Foto: Jade Prado

 

 

 


 'Sussurros... ' Foto: Arquivo Finos Trapos 

Sussurros... (2004)

 

O início da aventura cênico-dramatúrgica do Finos Trapos está relacionada à pesquisa de um experimento cênico que pouco tem a ver com a estética na qual se enveredou nos trabalhos posteriores. A primeira realização cênica foi “O Cárcere”, experimento exibido no ano de 2003, em Vitória da Conquista, em razão de uma das edições do “Assim se Improvisa”, Projeto idealizado pelo dançarino e coreógrafo Chefinho Santos, e promovido junto ao Grupo Pafatac de Teatro. Ainda que este não tenha sido o primeiro projeto de encenação dos jovens artistas, vez que intentavam a montagem de um espetáculo popular inspirado na Literatura de Cordel, no que diz respeito à temática e à estética, “O Cárcere” foi o embrião do que mais tarde viria ser o primeiro espetáculo de repertório concretizado pelo Grupo: “Sussurros...”.

“Sussurros...” narra cinco histórias paralelas que versam sobre os desassossegos d'alma que agonizam na selva da cidade. Explorava uma linguagem corporal baseada no teatro físico e uma dramaturgia que prezava pelo tom tragicômico. Utilizava-se de quadros fragmentados, cada qual abordando a vida de personagens dilacerados pelas relações familiares. Estreou em maio de 2004, no Teatro Vila Velha; depois realizou temporada em novembro do mesmo ano no Teatro Carlos Jehovah em Vitória da Conquista, inaugurando o que viria a ser uma dinâmica frequente na vida do grupo: a atuação na cidade de origem dos membros e na capital baiana. Em 2005 recebeu o Prêmio de Circulação da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb) e realizou temporadas no Teatro Dona Canô (Santo Amaro) e no Teatro Xisto (Salvador). Em 2006 foi vencedor do Prêmio de melhor cenário no Festival Ipitanga de Teatro (Lauro de Freitas). Logo após este período, a partir das novas inquietações poéticas pelas quais o grupo enveredara o espetáculo “Sussurros...” encerrou sua trajetória, não voltando mais a cartaz.

Os envolvidos no processo afirmam que “Sussurros...” refletira um momento de transição dos jovens artistas, recém-chegados à cidade grande e confrontados com a ‘selva de pedra’ da metrópole soteropolitana. Em síntese, o que foi preservado desse processo criativo e que se tornou uma marca da dramaturgia do Finos Trapos foi a utilização do elemento autobiográfico como disparador criativo.

 

Sussurros... Teatro Vila Velha (2004) Foto: Arquivo Finos Trapos

 

Camarim - Vitória da Conquista / Novembro de 2004 - Foto: Roberto de Abreu

 

 

 

 

 


 

Foto: Jamille Nogueira

Sagrada Folia (2005)

 

"Sagrada Folia", estreou em outubro de 2005, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima (Vitória da Conquista), com financiamento do Edital de Apoio a Montagens de Pequeno Porte (FUNCEB). Narra a saga de uma comunidade sertaneja que depois de andar 40 anos pelos sertões em busca de uma terra prometida interrompe a caminhada e repensa a necessidade de seguir caminho. Liderados por Dona Nanã, perseguem o sonho de encontrar uma Nova Canaã, uma nova Canudos, onde não sofram das misérias catingueiras. Ao parar para decidir se seguem a procura ou não, acabam motivados por Mariazinha, e pelas aparições de Nossa Senhora das Vitórias, a celebrar a vida num ritual, discutindo valores do homem, da fé e do destino.

A dramaturgia do espetáculo, escrita por Francisco André, Roberto de Abreu e Yoshi Aguiar, reporta ao ritual católico e ao teatro medieval. A força do imaginário cristão, seus santos, seu maniqueísmo, suas desventuras fatalistas e modos de ver a vida – que são tão próprios da tradição ibérica sustentada pelo povo nordestino interiorano – são traduzidas numa plasticidade hiperbólica, prenhe em coloridos e rococós. O ritual é um pretexto, uma estrutura que foi esvaziada e preenchida com manifestos da tradição popular.

As imagens, memórias e tradições da região sudoeste, de Vitória da Conquista, região da Chapada Diamantina e adjacências foram matrizes e potências para a composição do espetáculo. O grande êxito de “Sagrada Folia” é justamente propor outro referencial de cultura baiana, mais predominante na região do semiárido, distante dos estereótipos que permeiam a noção de baianidade. Uma versão que não se contrapõe aos referencias litorâneos, mais que, ao contrário, alarga os horizontes canônicos correntes.

Com esse trabalho, o Grupo expande a sua zona de atuação do eixo Vitória da Conquista – Salvador para diversas outras cidades do interior, alcançando, inclusive, outros estados como São Paulo, Ceará e Minas Gerais. A realização de temporadas e participação em Festivais como o Festival de Teatro de Guaramiranga-CE, o Festival de Teatro de Pindamonhangaba-SP (FESTE) e o Festival de Cenas Curtas Galpão Cine Horto, proporcionaram importantes reflexões entre os membros do Finos Trapos, sobre as potencialidades e fragilidades do espetáculo bem como o amadurecimento da estética que se propunham a pesquisar dali em diante.

 

Foto: Jamille Nogueira

 

Sagrada Folia em Belo Horizonte -  Foto: Polis Nunes


 

Foto: Jade Prado

Sagrada Partida (2007)

 

O argumento de Sagrada Folia, de tão barroco e rico em possibilidades dramatúrgicas acabou dando origem a um Projeto intitulado “Trilogia Sertaneja”, composta por Sagrada Partida, Sagrada Folia e Sagrada Chegança – este último não concretizado, sendo substituído pelo Auto da Gamela. A decisão pela trilogia partiu da vontade do Grupo em explorar o universo ficcional suscitado em “Sagrada Folia”, impossibilitado pela estrutura dramatúrgica escolhida desse espetáculo, que se orientava pelo jogral, o musical e o ritual católico canônico.  Era também uma possibilidade de aproveitar o farto material teatralmente potente gerado durante o processo de pesquisa que não foi levado à cena na montagem de ‘Folia’.

Durante o processo de criação de “Sagrada Partida” a decisão pela abordagem da estória sob a perspectiva de um núcleo familiar potencializou uma curva dramática e o aprofundamento interpretativo dos atores – o que rendeu, inclusive a indicação ao Prêmio de Melhor Atriz para Polis Nunes no Prêmio Braskem de Teatro 2007. O processo criativo da obra, além de se basear no universo ficcional da Trilogia Sertaneja, balizou-se por três obras da literatura regionalista nacional (O Quinze, de Rachel de Queiroz; Vidas Secas, de Graciliano Ramos; e Meninos de Engenho de José Lins do Rêgo). 

Sagrada Partida estreou em 2007 na Caixa Cultural Salvador, com financiamento do Edital de Ocupação promovido pela Caixa Econômica Federal. Trata-se de uma fábula rural sobre a liberdade. Homem, Mulher e Menino, sem rosto e sem nome, vêm, pelo batente da janela, todo seu povoado ser abandonado. Instaura-se a contenda entre ficar e partir, onde o patriarcado dá o tom conflituoso da trama. A encenação é marcada pelo hibridismo entre a estética naturalista e expressionista, revelando duas faces das personagens em jogo.

Depois da estreia realizamos outras duas temporadas, uma no Teatro Sesc-Senac Pelourinho e outra no Espaço Xisto Bahia. Entretanto, pela estrutura que demandava de produção, uma vez que o espetáculo fora projetado visando a ocupação de um espaço das proporções da Caixa Cultural, “Sagrada Partida”, dos sete espetáculos que compõem o repertório do Finos, foi o que menos tempo durou em cartaz. Apesar disso, essa realização é uma das mais importantes na trajetória do Grupo, pois a partir desse processo criativo, deu-se o início de uma estruturação mais sistemática no âmbito da produção, sendo os membros organizados em Núcleos de Trabalho e a opção pela diminuição do número de intérpretes por espetáculo para possibilitar uma melhor gestão dos outros aspectos da montagem.

 

Foto: Jamille Nogueira

 


Foto: Roberto de Abreu


 

 Foto: Jade Prado

 Auto da Gamela (2007)

 

Os primeiros passos em direção à maturidade de sua gestão possibilitaram ao Grupo a administração de dois processos criativos quase que concomitantes. “Sagrada Partida” e “Auto da Gamela”, respectivamente, terceiro e quarto espetáculos do repertório, estreiam no mesmo ano, sendo ‘Partida’ em março e ‘Gamela’ em Junho de 2007. Dois espetáculos com estéticas completamente distintas, produzidos e geridos pelo mesmo coletivo e tendo à frente o mesmo encenador.

Particularmente, os anos de 2006 e 2007 foram períodos de intensa produtividade e inspiração criativa para o grupo, mesmo tendo os seus integrantes que se dividirem entre as demandas das vidas pessoais e trabalhos fora do coletivo, uma vez que o Finos disputava o status de prioridade, inclusive, com a formação acadêmica.

A montagem de “Auto da Gamela” marca um período de encontros felizes para o Finos. Primeiramente, com um texto pré-existente – a obra de Esechias Araújo Lima e Carlos Jehovah, poetas e dramaturgos conquistenses, além de grandes entusiastas do trabalho do Grupo; em segundo lugar, com o recurso da metalinguagem, procedimento dramatúrgico já suscitado embrionariamente em “Sagrada Folia” e que será amplamente explorado nos trabalhos ulteriores; em terceiro, com a linguagem do teatro musical; e por último, a entrada de mais um integrante: Frank Magalhães.

O texto Auto da Gamela é uma obra de referência da literatura de Vitória da Conquista, lançada na década de 80 pela editora José Olympio e que recebeu comentários elogiosos de escritores como Jorge Amado e Rachel de Queiroz, esta última, inclusive, prefacia o livro. Não se trata de um texto dramatúrgico, apesar de seu lirismo e poesia conservarem características profundamente cênicas. O ‘Auto’ já fora montado em diversos outros estados brasileiros, e Esechias Araújo Lima, em razão de um evento relacionado à uma Cooperativa de Crédito lançou ao Grupo o desafio de realizar a primeira montagem baiana. 

Na adaptação da Finos Trapos, uma trupe de saltimbancos do nordeste desembarca de sua carroça num vilarejo sertanejo, onde irão representar seu número dramático. Decidem por representar ali, um de seus dramas de repertório: AUTO DA GAMELA, um número dramático que narra a história do menino Francisco, o cristozinho sertanejo. 

Espetáculo vencedor do Prêmio Myriam Muniz de Teatro em 2006, estreou no mês de junho de 2007 no Teatro Vila Velha em Salvador. Depois disso realizou diversas temporadas na capital e no interior da Bahia participando de Festivais, encontros e temporadas independentes.

“Auto da Gamela” proporcionou uma consolidação dos pilares estéticos que o Finos passou a explorar como matriz de criação. Em crítica elogiosa ao trabalho do Grupo o Prof. José Antonio Saja, filósofo e acadêmico de reconhecida atuação no cenário teatral baiano, analisa essa escolha poética e estética afirmando que:

O ‘Auto’ é o espetáculo mais bem sucedido na trajetória do Finos até então, tanto no que diz respeito ao sucesso de público quanto da crítica especializada, sendo, inclusive, indicado a seis categorias do Prêmio Braskem de Teatro 2007 – melhor espetáculo, melhor direção (Roberto de Abreu), melhor ator (Francisco André), Categoria Especial/ Trilha Sonora e Melhor Espetáculo do Júri Popular – ,a premiação mais importante do cenário teatral baiano, no qual Roberto de Abreu levou a estatueta de melhor diretor.

 

Foto: Jade Prado

 

Foto: Aroldo Fernandes


 

Foto: Jade Prado

 

Gennesius – Histriônica Epopéia de Um Martírio em Flor (2009)

 

Se o trabalho anterior consolidou-se em prestígio do trabalho do Grupo no que tange ao público e a crítica, o processo criativo de “Gennesius...” resultou para o Finos Trapos em um rico momento de reflexão sobre a prática artística que desenvolvia, na sistematização de procedimentos metodológicos bem como o seu reconhecimento junto ao meio acadêmico. O espetáculo foi fruto de dois anos e meio de processo de pesquisa e sistematização tendo como rum dos resultados a Dissertação de Mestrado de Roberto de Abreu, também encenador da obra.

No processo, exploramos rigorosamente os procedimentos da metalinguagem e do elemento biográfico como material para a criação. Foram acrescentadas a essas linhas de força a linguagem do melodrama e diferentes disposições do espaço de encenação. A montagem de “Gennesius...” coincide com o período de residência do Grupo no Espaço Xisto Bahia, em razão da execução do Projeto selecionado no Edital de Ocupação de Espaços Culturais da Fundação Cultural do Estado.

 “Gennesius...” estreou em 2009, no Espaço Xisto Bahia, através do Prêmio Myrian Muniz de Teatro, FUNARTE, Ministério da Cultura, Governo Federal.  De lá pra cá já entrou em temporadas na capital e no interior da Bahia, bem como participou do Festival Latino Americano de Teatro (FILTE).  Com “Gennesius...”, foi indicado nas categorias Melhor Direção e Melhor Trilha Sonora Original ao “Prêmio Braskem de Teatro” (2009).  

​O personagem título da peça em três atos é um anti-herói, um artista nordestino do interior da Bahia que, ao longo dos caminhos e descaminhos de sua vida, acumula experiências de candor e de maravilha. Um mito tratado como uma lenda musical, que lança olhar sobre Genésio em suas dimensões sensíveis como artista e homem de teatro. A dramaturgia do espetáculo, talvez a mais madura produzida pelo Finos até então, explora questões endêmicas do fazer teatral dos artistas dos contextos culturais regionais, como a migração e a desilusão com a realidade encontrada nos grandes centros, a “Meca”, a cidade idealizada dos artistas.

“Gennesius...” também é importante por ser o espaço de investigação da denominada dramaturgia da sala de ensaio, sistematizada por Roberto de Abreu com base nas práticas artísticas desenvolvidas pelo Grupo sob sua batuta de encenador. O espetáculo também é a sua última realização cênica no Finos Trapos, em razão do seu afastamento para estar a frente dos Cursos de Licenciatura em Teatro e Dança da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e, posteriormente, pelo seu trágico falecimento.

 

 

Foto: Leonardo Pastor

 

 

Foto: Jade Prado


 

Foto: Tomaz Mota

Berlindo (2011)

 

O período anterior ao processo de criação de Berlindo foi marcado por profundas mudanças do Grupo de Teatro Finos Trapos. A conclusão dos estudos de graduação e as conquistas particulares fizeram com que os membros disponibilizassem pouco tempo para o trabalho no Finos. Atrelado a isso, o afastamento por tempo indeterminado de Danielle Rosa, Rick Fraga, Roberto de Abreu e Shirley Ferreira que por razões de ordem pessoal e profissional tiveram que residir em outras cidades, passou a onerar ainda mais os custos de produção, vez que seria necessário que se arcasse com as despesas de deslocamento desses membros, não apenas para as apresentações como também em todo o processo de ensaios. Esse fator, aliado à agenda complicada fez com que a produtividade do Finos despencasse, sendo necessária uma reestruturação. Desta, nasce o projeto de montagem de Berlindo, conduzido pelos membros do Grupo que permaneciam em Salvador-BA.

A ideia de encenar Berlindo foi apresentada por Yoshi Aguiar logo após o diálogo com o autor do texto, seu amigo Gilsérgio Botelho. Gilsérgio é natural de Vitória da Conquista-BA, e havia dirigido Yoshi anteriormente naquela cidade em trabalhos junto à Cia. Operakata de Teatro, da qual além de dramaturgo é também encenador. Por admirar e conhecer a trajetória do Finos Trapos, ao saber do nosso interesse em remontar o seu texto, criado na década de 90 e encenado pela primeira vez com o seu Grupo no Rio de Janeiro-RJ,  Gilsérgio cedeu os direitos para que o Finos Trapos pudesse contar a saga desse personagem agregando à narrativa a sua linguagem poética. 

O espetáculo é a primeira aventura do Finos Trapos no teatro de rua, ainda que alguns dos trabalhos anteriores –  como “Sagrada Folia” e seu fragmento “O Caçador de Bruxas” –  tenham ganhado adaptações para esse espaço de encenação, o que se configurava, entretanto, como teatro ‘na’ rua e não propriamente teatro ‘de’ rua. Esta seria a primeira aventura genuinamente popular, pois o projeto buscava a interlocução não apenas com a temática do povo simples como também procurava o mesmo enquanto público alvo. Foi um espetáculo projetado para ser apresentado em feiras, praças, largos, estações etc. Lugares inusitados, onde os atores sairiam do conforto da caixa cênica para se comunicar diretamente com o espectador da periferia. Em Berlindo, o Finos experimentou a participação de um intérprete convidado, Danilo Cairo, integrante do Grupo Toca de Teatro em Salvador. 

Trata-se de um espetáculo bufo, grotesco, projetado para ser de fácil comunicação com a gente humilde, que pouco conhece dos signos do teatro canônico realizado nas grandes casas de espetáculos. Talvez por isso “Berlindo” não tenha obtido tão boa repercussão entre a gente erudita do teatro como nos espetáculos de repertório anteriores, gente que a longa data acompanhava o trabalho do Grupo.

Com uma curva dramática de fácil assimilação, algo um tanto peculiar ao perfil barroco que marcava o finorepertório até então, o espetáculo afirmou-se com um caráter panfletário e didático. Essa característica talvez tenha sido o motivo de o espetáculo ter tido boa repercussão entre a gente popular, público alvo da montagem.

A dramaturgia de Berlindo faz uma sátira à política brasileira. O personagem-título convence uma pequena comunidade de suas boas intenções e chega ao poder. Mas não tarda a ser desmascarado, experimenta a reação do povo e é deposto de seu cargo.  Uma ópera bufa melodramática, lasciva e brega. O espetáculo estreou em 2011, vencedor do Prêmio Manoel Lopes Pontes - Apoio a Montagens de Teatro (2010). Cumpriu temporada se apresentando em diversos espaços da capital e no interior baiano, mais precisamente na cidade de Santo Antônio de Jesus. Participou da Mostra SESC de Artes - Aldeia Pelourinho em 2012, logo após encerrando sua trajetória. 

 

Foto: Érica Daniela

 

Foto: Érica Daniela

 

Fina Agenda Resumida

Blog